Circula pelo metrô de Londres um anúncio público com os seguintes dizeres: “2 em cada 4 londrinos sofrem de depressão aguda. Se você tem os sintomas x, y, z, procure ajuda nestes telefones etc”.
Na Inglaterra, onde morei por 3 anos, o céu é permanentemente cinza, só dando uma folga em julho. As nuvens parecem estar a 5 metros de nossas cabeças. Escurece cedo. Faz frio. As pessoas são fechadas. E a polidez confunde-se com indiferença.
Uma organização não-governamental holandesa chamada Health Action International (que defende o acesso mais barato a remédios) fez um teste interessante: levantou, no mesmo dia (30 de novembro de 2009), o preço de um antibiótico chamado Ciprofloxacin em farmácias de 93 países. Para tanto, usou uma rede de colaboradores. A iniciativa resultou em um mapa online (a interatividade não é das melhores, mas vale pela iniciaitva).
No Brasil, foi visitada uma farmácia em Pelotas (RS). Lá o antibiótico só não é mais caro do que na Colômbia e nos Estados Unidos – uma caixa com 500 mg saiu por US$ 106,46 (do laboratório original; quando é genérico cai para US$ 15,59). Em Pelotas, o preço está acima do praticado em 90 países pesquisados. O mesmo Ciprofloxacin – usado para tratamentos diversos — custa um terço do preço em cidades como Santiago do Chile (US$ 31,37 e US$ 1,48 quando genérico) e Barcelona (US$ 32,43 e US$ 7,56 para o genérico). Já em Goa, na Índia, paga-se menos de 50 vezes o preço brasileiro: US$ 1,89 e US$ 1,50 o genérico.
Se este tipo de informação valer para outros medicamentos, aí estará um bom assunto para a campanha eleitoral de 2010. Será que o preço do remédio no Brasil está entre os mais caros do mundo? Como se sabe, muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são.
Pescador se prepara para depoimento em reunião de empresa alemã
Lendo o ótimo site Fazendo Media fiquei sabendo de uma estratégia curiosa adotada por cidadãos para fazerem denúncias contra grandes grupos econômicos que afrontam seus interesses (tarefa, diga-se, das mais inglórias). Funciona assim: eles compram ações das empresas e tornam-se “acionistas críticos” (ao que parece a prática é comum na Alemanha). Por portarem ações, eles ganham assento nos encontros anuais de acionistas, com direito à voz – e soltam os lagartos.
Foi o que fez um pescador do Rio de Janeiro que, apoiado por organizações da sociedade civil, participou, no ultimo dia 21 de janeiro, de um encontro de 2 mil acionistas da Thyssenkrup na Alemanha. A empresa lidera a instalação da Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA), na Zona Oeste do Rio, em parceria com a Vale do Rio Doce.
Diz o texto, assinado por Gilka Resende: “Com essa abertura, chegaram a todos os acionistas presentes, bem como à direção e ao conselho da ThyssenKrupp, denúncias sobre crimes ambientais e sobre o desrespeito aos direitos humanos e trabalhistas cometidos pela empresa Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA) no Brasil”.
A CIA, a agência de inteligência americana, mantém em seu site uma seção chamada “The World Fact Book”, algo como “O Livro dos Fatos do Mundo”, em que reúne informações gerais sobre todos ou quase todos países do planeta. E eis que no item “people” da página dedicada ao Brasil, a CIA aponta que 0,3% da população cultua a religião “Bantu/voodoo” (e dá como crédito o Censo de 2000).
Bantos? Vodus? Estas palavras não aparecem no Censo oficial.
Na verdade, o 0,3% da CIA corresponde, no Censo do IBGE, à soma de duas religiões com parentesco na África: Umbanda e Candomblé.
Umbanda e Candomblé viraram no site americano, sabe-se lá se nesta ordem, pouco importa, “Banto” (que é não é propriamente uma religião, mas um grupo etnicolinguístico, entre os diversos que vieram da África para o Brasil) e Vodus (que encontra seu culto mais fortemente presente em países como o Haiti, e apenas perifericamente no Brasil).
Parece que botaram whisky na feijoada.
Se o pessoal da CIA trabalha as informações com esta acuidade lá pelos lados do Oriente Médio e Ásia Central – regiões que representam de fato “ameaça” aos EUA – bem, então, o contribuinte americano deveria colocar as barbas de molho.
Agora, e mudando de assunto ligeiramente, será curioso especular sobre quais associações dispara, na mente do americano médio, a palavra “Vodus”. O trecho do filme de 007, Live and Let Die (1973), abaixo, pode, quem sabe, sugerir pistas.
Mas o que quero contar é que de onde estava, na praia do Lázaro, pude observar o retorno dos paulistanos à capital. Achei impressionante: a Rio-Santos ficou congestionada durante três dias inteiros – manhã, tarde, noite. Parecia um filme B americano de fim do mundo.
Havia chovido muito e caído uma barreira no trecho até Taubaté, o que obrigou a massa motorizada a seguir pela via exclusiva da Tamoios – uma estradica precária, que deveria funcionar bem nos anos 1970 quando circulavam Fuscas e Variants e uma quantidade infinitamente menor de carros.
A situação me fez lembrar o cartum abaixo, que peguei no blog Desculpe a Poeira:
“Se estes idiotas tivessem pego o ônibus, a essa hora eu já estaria em casa”
A Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho, do governo de São Paulo, mantém um site chamado Termômetro Nacional do Emprego. A ideia é ajudar a pessoa a saber quais suas chances no mercado de trabalho por meio de um formulário online.
Uma amiga, que é negra, resolveu fazer um teste. Ao preencher o formulário, ela descobriu que uma mulher com ensino superior completo, solteira e sem filhos pode esperar ganhar entre R$ 659,00 e R$ 1.461,00, se for branca. Já uma mulher na mesma situação, só que negra, deve baixar suas expectativas para um salário entre R$ 590,00 e R$ 1.309,00.
Minha amiga ficou vexada. Acha que começar uma busca por trabalho assim, desanima.
70% dos americanos acreditam ser provável que aconteça um atentado terrorista nos Estados Unidos nos próximos doze meses. O número – publicado na edição de 9 de janeiro da revista The Economist — é da empresa de pesquisas YouGov Polimetrix. O levantamento foi feito alguns dias depois do atentado fracassado a um avião da NorthWest Airlines que fazia a rota Amsterdã-Detroit.
Em abril de 2009 o receio em relação a atentados era de 51%.
A The Economist ressalta que o ano não começou bem para o presidente americano Obama, que encontra dificuldades para livrar-se do figurino de “presidente da guerra”. Além do atentado – que levou ao anúncio de novas medidas de segurança – há o envio, para breve, de mais soldados para o Afeganistão.
Me deparei recentemente com um texto interessante escrito pelo filólogo Antônio Houaiss (1915-1999), no qual que ele estimava quantas palavras existiam nos séculos XIX e XX para designar profissões. Reproduzo:
“a divisão do trabalho físico e mental sofreu uma revolução; estima-se que, pela metade do século XIX, um vocabulário de em torno de 260 denotativos era suficiente para designar todas as ciências, artes, mesteres, profissões; pela metade deste século (o XX), um vocabulário mínimo de 24 mil designativos se fazia insuficiente para designar as ciências, subciências, superciências, metaciências, artes, subartes, transartes, profissões, especilizações, microespecializações” (…).
A pensata de Houaiss é de 1985 e está na obra “A Construção do Livro” (pág 20), de Emanuel Araújo.
É curioso imaginar como seria este placar hoje, neste início de século XXI, em pleno vigor da revolução permanente nas comunicações. Teremos mais profissões hoje do que no século passado? Ou se pelo contrário, ao nos transformarmos em ilhas produtivas, que, cada qual, precisa responder às mais diversas demandas, não tenhamos regredido na tal divisão do trabalho físico e mental (no sentido em que o indivíduo precisa desempenhar as mais diversas funções e recorrer a habilidades várias, “aglutinando” procedimentos antes separados)??
Rogério Pacheco Jordão (rogeriojordao@uol.com.br) é jornalista e autor do livro Crime (quase) Perfeito. Mestre em política comparada pela London School of Economics (Londres), já trabalhou na TV Cultura, Jornal da Tarde, O Globo, entre outros veículos; também atua como assessor de comunicação.