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O Jardim Colombo, 20 anos depois

Imagem: liquidslave
Minha busca começou por encontrar o telefone de Celina. Depois de tantos anos, ela não guarda nenhum papel, nenhuma lista de presença, nem material didático de nossas aulas de alfabetização pelo método Paulo Freire que dávamos na favela do Jardim Colombo. Curiosamente, recorda-se apenas de um nome, coincidentemente o único que também guardo na memória e que motiva esta busca, mais de 20 anos depois: José Suzarte. Por que procurar Suzarte? Ou seria Sozarte?
Nos meus arquivos o que ainda resta são três números do Candeia, jornal artesanal que fizemos –estudantes de Ciências Humanas da USP – em 1986. Naquele tempo fui ao Colombo dia sim, dia não, incluindo-se alguns finais de semana, durante dois anos. Eram cerca de 20 alunos, entre eles – o único do qual me recordo feição e nome completo – José Suzarte de Carvalho. É difícil definir a grafia do nome, visto que no jornal Candeia número 2, de agosto de 1986, que listava os candidatos à União dos Moradores, aparece como José Sozarte de Carvalho – e na edição do mês seguinte, ele é o candidato número 15 onde se lê José Suzarte (Mé).
Coveiro do cemitério Gethsêmani, colado na favela, Suzarte ou Sozarte era analfabeto e seu perfil não se encaixava nas linhas dos livros de Paulo Freire: era uma espécie de anti-aluno, de anti-herói. Enquanto buscávamos desvendar mundos e horizontes pelas letras, a partir de “palavras geradoras” como ti-jo-lo, fa-ve-la, sa-la-ri-o, Suzarte queria apenas – e dizia isto – aprender a assinar o próprio nome. E ainda assim porque o cemitério passara a exigi-lo de uma hora para outra.
Google & interurbanos
Os dados do IBGE para o Jardim Colombo revelam uma população de 5.245 pessoas e que a situação geral melhorou de saneamento, renda, educação, tanto nas regiões “subnormais” (como as favelas são definidas nas estatísticas censitárias) Colombo 1 como na Colombo 2, pois a favela é dividida em duas. A Rua Clementino Brene, que as separa, desemboca na extensa Av. Giovanni Gronchi, no Morumbi, na entrada de uma das maiores favelas de São Paulo, a Paraisópolis, na zona sul.
No Google, a primeira referência a Jardim Colombo toca a corda do medo. Diz que “Os escritores do livro Hip-Hop a Lápis; Ridson, Justin e Zero4 são alguns dos moradores do Jardim Colombo perseguido (sic) pela polícia”. O texto ainda descreve helicópteros policiais sobrevoando a favela. Onde estará Suzarte? Magro, baixo, com a cara chupada, era um cara confuso, quase engraçado. Veio do interior da Bahia e chegou a São Paulo nos idos de 1970 na antiga rodoviária da cidade na Luz.
Na internet localizo o telefone da Associação Viver em Família para um Futuro Melhor no Colombo, que passou o número da União dos Moradores e o nome do seu presidente. Genilson ouve a minha breve história. Quando falo em Suzarte, se o conhece, ele diz que é claro!, ele é da União, “nosso braço direito” e pede que eu ligue no dia seguinte para falarmos num aparelho fixo. Na União atende Luciene, a secretária; segundo ela, Suzarte anda “chique”, tem dois aparelhos celulares – e me fornece os números.
Suzarte responde ao meu alô empregando a terceira pessoa: “Quem quer falar com ele?”. Me apresento, lembra de mim?, ele diz “sim”. Ressabiado, seco – contraria minhas expectativas de um diálogo após 20 anos de ausência. Diz que lá agora “está muito bom”, que “mudou muito”, se anima, e digo que seu nome foi o único que me lembrei, para o que, aparentemente feliz, comenta: “É, Suzarte”.
No telefonema seguinte ele conta que o Colombo já não é mais favela, “virou cidade”. Sugere que domingo não é bom para aparecer, que “dia de semana é melhor”. Diz que sofreu um acidente, que quebrou a perna e o braço, aposentou-se por invalidez; tem 55 anos e está “mais gordo”. Não é fácil entender sua língua. Rua Clementino Brene vira algo incompreensível terminado com “Bene”. E sacramentamos o encontro: segunda-feira às 9 da manhã na União, virei do Rio de Janeiro.
A “realidade”
Às nove da manhã em ponto me posiciono em frente à casa amarela-descascada protegida por um portão de ferro vermelho trancado a cadeado. Não tenho dificuldade para reconhecer a União, ali da entrada da favela pela Rua Clementino Brene, local de onde obtém-se uma vista panorâmica da comunidade, instalada dentro de um pequeno vale. A paisagem agora é laranja, dos blocos, pois a comunidade ganhou em volume de construção – no passado tendia para o marrom, cor de tábua, e o verde, pois havia clarões com árvores e mato.
Levo alguns segundos para reconhecê-lo quando chega acompanhado por uma mulher loira e é ela, Luciene, a secretária da União, quem olha e fala o meu nome. O rosto de Suzarte é o mesmo, só que inflado. Não olha diretamente, estende rapidamente a mão. Não sei o que fazer nem o que perguntar; ele me encaminha: “entra”.
Observo ao redor a antiga sala de aula, estreita, escura. Abro a pasta, tiro os jornais daquela época, ele demonstra satisfação, alegra-se ao relembrar “aquele tempo”, “era mais sossegado, antigamente”. Faz referências genéricas às drogas e comenta que “os jovens são a tristeza do Brasil”.
De lá partimos para a visita, sem um aparente roteiro prévio, mas que, percebo, Suzarte quer mostrar as melhorias. A primeira parada é o prédio de concreto aparente sustentado por pilotis da Associação Viver em Família para um Futuro Melhor, um conjunto de salas de dois andares, que chama a atenção pela modernidade, destoa do restante, principalmente do acanhamento da sede da União, que fica ao lado. O conjunto tem uma quadra de esportes, ar-condicionado para os computadores, salas de aula de informática e de formação profissional. E hoje há provas de redação – “se eu fosse Presidente da República”, e, na sala contígua, uma mensagem à giz na louza: “Só temos uma chance para causar a primeira boa impressão”, Woll Disney.
Suzarte apresenta as pessoas que passam, as mais velhas, “o professor, lembra?”, leva na mão um exemplar do jornal, “muito importante, ajudou muito”, que por vezes mostra, como fazia há vinte anos, de ponta cabeça, já dando sinal (hesito em perguntar, é delicado) de que não aprendera a ler. Pergunto. Ele sorri, encabulado, “aprendi a fazer meu nome”. E continua nas vielas, por onde circulam algumas motos e há carros (poucos) estacionados, “lembra do Sebastião?”, eu não lembro, nem da Igreja em obras, uma casa espremida entre outras.
Visito as duas creches (que não existiam antes), bem arrumadas com desenhos infantis pendurados nas paredes – e a reclamação é que o repasse da prefeitura é pouco, paga os salários, mas e a mistura?; o telefone não funciona há dois dias. As creches atendem a mais de 200 crianças, mas o número que está fora é igual ou maior que este, informam.
No vai-e-vem das vielas, Suzarte para e aponta por três vezes, no mesmo local, uma passagem de água suja que corre a céu aberto por debaixo de uma casa, “vem lá de cima”, inocentemente pergunto onde está a nascente, “é esgoto”. No trajeto de volta – e depois de passarmos na casa de Chico Paraíba, 75 anos, o morador mais velho, “fui o terceiro a chegar, era tudo mato, tinha um rio que a gente lavava roupa, uns peixinhos vermelhos que pareciam camarões, lembra Suzarte?, tudo mudou” – já a caminho da União, da saída, mostra no braço direito a cicatriz do acidente, um atropelamento dentro da favela, um motorista “emaconhado”, “esbagaçou o braço e a perna, quase morri”. Difícil entender o que ele fala, como o é decifrar as pequenas letras estampadas em sua camiseta azul, onde lê-se, em formato de rodamoinho, “Colisão – here, there and everywhere”.
Suzarte é de poucas palavras. Evita encarar o interlocutor, observa de soslaio; nas vielas, porém, se comunica o tempo todo com todos, frases cifradas, em tom baixo. “Tenho audiência na comunidade”, refere-se aos quase 600 votos em uma das eleições para a União. Ele faz as apresentações, depois fica observando, intervém, aqui e ali, para lembrar que antes, não agora, em São Paulo se ganhava dinheiro com “rifa”, “cocada”, “ferro velho”, mas hoje, hoje…na favela “ninguém conhece ninguém, parece cidade grande”.
Já na União, sozinhos, e como último ato, inquiro-lhe se é Suzarte com “u” ou Sozarte com “o”. Ele não entende a procedência da pergunta, então escrevo-lhe o nome na folha em branco com “u”, é assim?, ele mal olha, não foca na grafia mas confirma. Peço, então, amistosamente, que ele assine o próprio nome, para o que acede, empunhando a caneta, as pernas cruzadas. Concentra-se. Leva um tempo grande para desenhar cinco letras: ‘Jozte’.
Agradeço pela cortesia, foi bom ter vindo, ver o que havia mudado em 20 anos. Ele arregala os olhos pela primeira vez no dia e pergunta, ansiando pela resposta: “e mudou, Rogério?”.
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Arquivado em Cidadania, História