Arquivo da categoria: História

O Jardim Colombo, 20 anos depois

Imagem: liquidslave
Minha busca começou por encontrar o telefone de Celina. Depois de tantos anos, ela não guarda nenhum papel, nenhuma lista de presença, nem material didático de nossas aulas de alfabetização pelo método Paulo Freire que dávamos na favela do Jardim Colombo. Curiosamente, recorda-se apenas de um nome, coincidentemente o único que também guardo na memória e que motiva esta busca, mais de 20 anos depois: José Suzarte. Por que procurar Suzarte? Ou seria Sozarte?
Nos meus arquivos o que ainda resta são três números do Candeia, jornal artesanal que fizemos –estudantes de Ciências Humanas da USP – em 1986. Naquele tempo fui ao Colombo dia sim, dia não, incluindo-se alguns finais de semana, durante dois anos. Eram cerca de 20 alunos, entre eles – o único do qual me recordo feição e nome completo – José Suzarte de Carvalho. É difícil definir a grafia do nome, visto que no jornal Candeia número 2, de agosto de 1986, que listava os candidatos à União dos Moradores, aparece como José Sozarte de Carvalho – e na edição do mês seguinte, ele é o candidato número 15 onde se lê José Suzarte (Mé).
Coveiro do cemitério Gethsêmani, colado na favela, Suzarte ou Sozarte era analfabeto e seu perfil não se encaixava nas linhas dos livros de Paulo Freire: era uma espécie de anti-aluno, de anti-herói. Enquanto buscávamos desvendar mundos e horizontes pelas letras, a partir de “palavras geradoras” como ti-jo-lo, fa-ve-la, sa-la-ri-o, Suzarte queria apenas – e dizia isto – aprender a assinar o próprio nome. E ainda assim porque o cemitério passara a exigi-lo de uma hora para outra.
Google & interurbanos
Os dados do IBGE para o Jardim Colombo revelam uma população de 5.245 pessoas e que a situação geral melhorou de saneamento, renda, educação, tanto nas regiões “subnormais” (como as favelas são definidas nas estatísticas censitárias) Colombo 1 como na Colombo 2, pois a favela é dividida em duas. A Rua Clementino Brene, que as separa, desemboca na extensa Av. Giovanni Gronchi, no Morumbi, na entrada de uma das maiores favelas de São Paulo, a Paraisópolis, na zona sul.
No Google, a primeira referência a Jardim Colombo toca a corda do medo. Diz que “Os escritores do livro Hip-Hop a Lápis; Ridson, Justin e Zero4 são alguns dos moradores do Jardim Colombo perseguido (sic) pela polícia”. O texto ainda descreve helicópteros policiais sobrevoando a favela. Onde estará Suzarte? Magro, baixo, com a cara chupada, era um cara confuso, quase engraçado. Veio do interior da Bahia e chegou a São Paulo nos idos de 1970 na antiga rodoviária da cidade na Luz.
Na internet localizo o telefone da Associação Viver em Família para um Futuro Melhor no Colombo, que passou o número da União dos Moradores e o nome do seu presidente. Genilson ouve a minha breve história. Quando falo em Suzarte, se o conhece, ele diz que é claro!, ele é da União, “nosso braço direito” e pede que eu ligue no dia seguinte para falarmos num aparelho fixo. Na União atende Luciene, a secretária; segundo ela, Suzarte anda “chique”, tem dois aparelhos celulares – e me fornece os números.
Suzarte responde ao meu alô empregando a terceira pessoa: “Quem quer falar com ele?”. Me apresento, lembra de mim?, ele diz “sim”. Ressabiado, seco – contraria minhas expectativas de um diálogo após 20 anos de ausência. Diz que lá agora “está muito bom”, que “mudou muito”, se anima, e digo que seu nome foi o único que me lembrei, para o que, aparentemente feliz, comenta: “É, Suzarte”.
No telefonema seguinte ele conta que o Colombo já não é mais favela, “virou cidade”. Sugere que domingo não é bom para aparecer, que “dia de semana é melhor”. Diz que sofreu um acidente, que quebrou a perna e o braço, aposentou-se por invalidez; tem 55 anos e está “mais gordo”. Não é fácil entender sua língua. Rua Clementino Brene vira algo incompreensível terminado com “Bene”. E sacramentamos o encontro: segunda-feira às 9 da manhã na União, virei do Rio de Janeiro.
A “realidade”
Às nove da manhã em ponto me posiciono em frente à casa amarela-descascada protegida por um portão de ferro vermelho trancado a cadeado. Não tenho dificuldade para reconhecer a União, ali da entrada da favela pela Rua Clementino Brene, local de onde obtém-se uma vista panorâmica da comunidade, instalada dentro de um pequeno vale. A paisagem agora é laranja, dos blocos, pois a comunidade ganhou em volume de construção – no passado tendia para o marrom, cor de tábua, e o verde, pois havia clarões com árvores e mato.
Levo alguns segundos para reconhecê-lo quando chega acompanhado por uma mulher loira e é ela, Luciene, a secretária da União, quem olha e fala o meu nome. O rosto de Suzarte é o mesmo, só que inflado. Não olha diretamente, estende rapidamente a mão. Não sei o que fazer nem o que perguntar; ele me encaminha: “entra”.
Observo ao redor a antiga sala de aula, estreita, escura. Abro a pasta, tiro os jornais daquela época, ele demonstra satisfação, alegra-se ao relembrar “aquele tempo”, “era mais sossegado, antigamente”. Faz referências genéricas às drogas e comenta que “os jovens são a tristeza do Brasil”.
De lá partimos para a visita, sem um aparente roteiro prévio, mas que, percebo, Suzarte quer mostrar as melhorias. A primeira parada é o prédio de concreto aparente sustentado por pilotis da Associação Viver em Família para um Futuro Melhor, um conjunto de salas de dois andares, que chama a atenção pela modernidade, destoa do restante, principalmente do acanhamento da sede da União, que fica ao lado. O conjunto tem uma quadra de esportes, ar-condicionado para os computadores, salas de aula de informática e de formação profissional. E hoje há provas de redação – “se eu fosse Presidente da República”, e, na sala contígua, uma mensagem à giz na louza: “Só temos uma chance para causar a primeira boa impressão”, Woll Disney.
Suzarte apresenta as pessoas que passam, as mais velhas, “o professor, lembra?”, leva na mão um exemplar do jornal, “muito importante, ajudou muito”, que por vezes mostra, como fazia há vinte anos, de ponta cabeça, já dando sinal (hesito em perguntar, é delicado) de que não aprendera a ler. Pergunto. Ele sorri, encabulado, “aprendi a fazer meu nome”. E continua nas vielas, por onde circulam algumas motos e há carros (poucos) estacionados, “lembra do Sebastião?”, eu não lembro, nem da Igreja em obras, uma casa espremida entre outras.
Visito as duas creches (que não existiam antes), bem arrumadas com desenhos infantis pendurados nas paredes – e a reclamação é que o repasse da prefeitura é pouco, paga os salários, mas e a mistura?; o telefone não funciona há dois dias. As creches atendem a mais de 200 crianças, mas o número que está fora é igual ou maior que este, informam.
No vai-e-vem das vielas, Suzarte para e aponta por três vezes, no mesmo local, uma passagem de água suja que corre a céu aberto por debaixo de uma casa, “vem lá de cima”, inocentemente pergunto onde está a nascente, “é esgoto”. No trajeto de volta – e depois de passarmos na casa de Chico Paraíba, 75 anos, o morador mais velho, “fui o terceiro a chegar, era tudo mato, tinha um rio que a gente lavava roupa, uns peixinhos vermelhos que pareciam camarões, lembra Suzarte?, tudo mudou” – já a caminho da União, da saída, mostra no braço direito a cicatriz do acidente, um atropelamento dentro da favela, um motorista “emaconhado”, “esbagaçou o braço e a perna, quase morri”. Difícil entender o que ele fala, como o é decifrar as pequenas letras estampadas em sua camiseta azul, onde lê-se, em formato de rodamoinho, “Colisão – here, there and everywhere”.
Suzarte é de poucas palavras. Evita encarar o interlocutor, observa de soslaio; nas vielas, porém, se comunica o tempo todo com todos, frases cifradas, em tom baixo. “Tenho audiência na comunidade”, refere-se aos quase 600 votos em uma das eleições para a União. Ele faz as apresentações, depois fica observando, intervém, aqui e ali, para lembrar que antes, não agora, em São Paulo se ganhava dinheiro com “rifa”, “cocada”, “ferro velho”, mas hoje, hoje…na favela “ninguém conhece ninguém, parece cidade grande”.
Já na União, sozinhos, e como último ato, inquiro-lhe se é Suzarte com “u” ou Sozarte com “o”. Ele não entende a procedência da pergunta, então escrevo-lhe o nome na folha em branco com “u”, é assim?, ele mal olha, não foca na grafia mas confirma. Peço, então, amistosamente, que ele assine o próprio nome, para o que acede, empunhando a caneta, as pernas cruzadas. Concentra-se. Leva um tempo grande para desenhar cinco letras: ‘Jozte’.
Agradeço pela cortesia, foi bom ter vindo, ver o que havia mudado em 20 anos. Ele arregala os olhos pela primeira vez no dia e pergunta, ansiando pela resposta: “e mudou, Rogério?”.
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As mulheres do cangaço

Recentemente li o livro Lampião – a trajetória de um rei sem castelo, de Paulo Moura. Muito interessante e cheio de detalhes sobre a vida do cangaço. Não sabia, mas até existe um termo que designa os estudiosos do tema: cangaceirólogo.
E numa parte da obra, o autor fala da presença das mulheres junto ao bando de Lampião, a começar, é claro, por Maria Bonita (na foto acima). Isto se deu a partir de 1930, na fase final do cangaço.
E abaixo transcrevo uma lista de mulheres e seus respectivos pares; achei tão sonoro que poderia até dar letra de música. Confira.
Dada (de Corisco), Neném (de Luiz Pedro), Durvalina (de Moreno), Sila (de Zé Sereno), Lídia (de Zé Baiano), Inacinha (de Gato), Adília (de Canário), Cristina (de Português), Maria Jovina (de Pancada), Dulce (de Criança), Moça (de Cirilo Engrácia), Otília (de Mariano), Maroca (de Mané Moreno), Mariquinha (de Labareda), Maria Ema (de Velocidade), Enedina (de Cajazeira), Rosalina (de Chumbinho), Estrelinha (de Cobra Viva), Hortênsia (de Volta Seca), Lacinha (de Gato Preto), Iracema (de Lua Branca), Eleonora (de Azulão), Lili (de Moita Braba), Catarina (de Sabonete), Mocinha (de Medalha), Maninha (de Gavião), Maria Juriti (de Juriti), Dora (de Arvoredo), Marina (de Laranjeira), Dinha (de Delicado).
Segundo o livro, de todas, a que mais passou tempo no cangaço foi Maria Bonita, que morreu ao lado de Lampião em 1938.
Eu não sabia, mas as cabeças cortadas de vários cangaceiros ficaram preservadas durante muitos anos em museus. As de Lampião e Maria Bonita foram enterradas, a pedido das famílias, apenas no ano de 1969, no cemitério Quinta do Lázaro, na Bahia.

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Uma visita ao cemitério dos Pretos Novos

Imagem: quadro “Filhos dos Reis brincando”, de Maria Lúcia dos Santos, em foto de Dominique Lieutet

Fiz uma visita ao Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos  (IPN), que fica no bairro da Gamboa (antiga Saúde), na região portuária do Rio de Janeiro. Passei uma ótima tarde conversando com a presidenta do Instituto, a Ana Maria de La Merced G.G.G dos Anjos, ou simplesmente, Merced. Filha de português com uma espanhola, a história do Instituto esta umbilicalmente ligada a sua trajetoria pessoal e à de seu marido, Petrucio.

Foi assim: em 1996 Merced, que mora na Rua Pedro Ernesto, recebeu um telefonema em seu trabalho, dando conta que os pedreiros que trabalhavam em uma obra em sua casa tinham, ao cavar um buraco, encontrado um punhado de ossos. Era o início de uma descoberta arqueológica, dessas passíveis de acontecer em uma cidade histórica como o Rio. Tratava-se do antigo cemitério dos pretos novos, onde foram enterrados em fossas comuns, nos séculos XVIII e início do XIX, milhares de escravos africanos, muitos dos quais recém-chegados ao Brasil, e que ficavam “armazenados” não longe dali, no mercado do Valongo. Até aquela manhã em que os pedreiros removeram a terra e se depararam com os restos mortais (e outros objetos), acreditava-se que o cemitério ficasse em outro lugar. Calcula-se que, apenas no período entre 1824 e 1830, 6.122 pessoas tenham sido sepultadas no local.

Na época da descoberta – e após Merced (na foto acima) pensar que se tratava dos restos de uma chacina (“cheguei a procurar um delegado”) – as autoridades competentes foram acionadas e arqueólogos retiraram parte do material – atualmente em poder do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). O trabalho de escavação – que teve repercussão na imprensa no período –, porém, ficou basicamente restrito ao que os pedreiros já tinham feito: fechou-se o buraco e a obra prosseguiu. Hoje um conjunto de 4 ou 5 casas (entre elas a de Merced e a sede do IPN, que fica ao lado) repousa sobre o que muitos acreditam ser o principal depositário de restos mortais de africanos no Brasil. No presente, um estudante de arqueologia, que ficou amigo de Merced, está trabalhando para calcular as dimensões exatas do cemitério.

De lá para cá, o IPN foi criado e virou ponto de cultura do governo federal e da Secretaria de Cultura do estado do Rio de Janeiro. Passada a euforia do achado, porém, tem-se um sítio arqueológico não explorado – e as tentativas de Merced e seu marido de criarem algo a partir do fato. Mas o quê? Um museu? Por ora, eles mantêm as atividades do IPN, que abarcam, entre outras iniciativas, uma série de oficinas sobre história, voltadas para estudantes do ensino médio e professores. Mas os recursos são esparsos e a manutenção é cara – as casas são tombadas pelo patrimônio histórico, o que significa, por exemplo, que os telhados não podem ser trocados – e manter um telhado antigo e calhas não é tarefa banal.

A sede do IPN funciona em uma casa comprida com um belo teto de vigas de madeira. No salão principal há uma exposição permanente de pinturas (a Galeria de Arte Pretos Novos), alguns tapumes com fotos do sítio arqueológico, além de equipamentos de escritório. As oficinas funcionam em uma sala contígua.

Mas como manter a iniciativa é um dilema – o mesmo vivido, aliás, por diversas organizações não governamentais e iniciativas do gênero, ancoradas em excelentes intenções mas limitadas do ponto de vista de recursos. Se o Brasil fosse um país que preservasse sua memória, valorizasse isto, talvez os caminhos descortinassem com mais naturalidade, mas como não é o caso, Merced e Petrucio têm muitos sonhos mas a sensação de que o “o tempo é curto”.

O cemitério, se bem tratado, com certeza poderia fazer parte, por exemplo, de um roteiro turístico-cultural, que englobaria as diferentes facetas da vida dos africanos no Rio de Janeiro em séculos passados, ao lado do mercado do Valongo (atual Rua Camerino), o porto, entre outros pontos da região hoje chamada de Gamboa. Em um clima favorável, pró-valorização da memória, o IPN não seria um (importante) fio solto, mas elo para muitas outras coisas.

E lá estão também as pinturas de uma figura excepcional, que conheci no final da visita e com quem peguei o ônibus de volta para casa. Maria Lucia dos Santos é uma artista e tanto – uma senhora negra com cabelos suavemente acizentados e um olhar vivaz. Ela me mostra quadro por quadro, povoados por dragões do céu, dragões da terra, leõezinhos, macacos, pássaros azuis, além de outros seres que ela enxerga nas paredes e passa para as telas.

MLS, como assina a artista, mora no Morro do Pinto e conta que já foi passar dois meses em Minas Gerais pesquisando pedras. Cada pedra, ensina, tem suas qualidades. Pergunto se para esculpir, ela dá risada, e diz que é para cura – que a pedra ela arranca das grutas com as mãos, mas que o segredo ela não ensina para ninguém, pois tem gente que pode usar para o mal.

No trânsito da Av Rio Branco parado na hora do rush, ela fala sem parar, lembrando que foi para Tiradentes, em Minas Gerais, e lá pintou um quadro chamado Inocência. Por que este nome, pergunto. “É porque lá tem muita gente inocente”. E ri.

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Os políticos e os “espinhos” do poder

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Imagem: Sebastian Fritzon 

Quando ouvir um político reclamar do poder (que está “amargurado”, “desiludido”, que fará o “sacrifício” de se candidatar), desconfie. O mais provável é que seja lorota.

Lembrei disso ao reler uma entrevista dada por Ulysses Guimarães ao jornalista Fernando Morais, em março de 1979.

Citando o então governador da Paraíba, Ernani Sátiro, Ulysses diz a Morais, respondendo se teria interesse em disputar, um dia, a Presidência da República: “ele (Sátiro) sempre dizia: Olha, Ulysses, vivem dizendo que a cadeira do poder é uma cadeira de espinhos. Só se os espinhos estão virados para baixo, porque é uma cadeira gostosa que é danada”.

(trecho tirado do livro “Primeira Página: as melhores entrevistas feitas por Fernando Morais”, editora Alfa-Omega, página 63).

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Um roteiro pelo Rio de Janeiro dos escravos

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Imagem: Unipop_es  

Li recentemente, e já “postei” a respeito, o ótimo livro “A vida dos escravos no Rio de Janeiro, 1808-1850”, da historiadora norte-americana Mary C. Karasch. Ela esmiúça a vida dos escravos no Rio na primeira metade do século XIX, apoiada em extensa documentação. Muito interessante.

A partir desta leitura, elaborei um breve roteiro turístico-histórico. O roteiro:

Passeio 1: o Valongo

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 Foto: O Valongo em pintura de Jean-Baptiste Debret

Entre 1800 e 1850 passaram pelo mercado de escravos do Valongo cerca de 1 milhão de africanos, provenientes principalmente de Angola, Congo e Moçambique. O mercado, na verdade um conjunto de casas ou “armazéns”, ficava num vale entre os morros da Conceição e o do Livramento, na região do cais (10 minutos a pé da atual Praça Mauá).

No local descrito pela historiadora há hoje, na subida para o Morro da Conceição, a ladeira do Valongo (uma travessa estreita que sai da Rua Camerino). Subindo a ladeira – e após passar por um conjunto de casebres — você tem uma vista do vale e é possível imaginar, com algum esforço, como era a área 200 anos atrás.

 No cume do Morro há uma unidade do Exército e um observatório astronômico da UFRJ. Não há referência ao antigo mercado – nenhuma placa, nada. A única lembrança histórica visível encontra-se materializada na praça abaixo, em um obelisco, onde lê-se que o “Cais do Valongo” foi reformado nos idos de 1840 para a recepção a uma Imperatriz que casar-se-ia com D. Pedro II. E é tudo.

 E do lado oposto, subindo-se a ladeira do Livramento, dominada por casarões do início do século XX, muitos dos quais transformados em cortiços, chega-se a uma torre de transmissões da Embratel. De lá é possível avistar, virando-se as costas para a região do Cais, a Central do Brasil e o Campo de Santana.

 Passeio 2: o Campo de Santana

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O Campo de Santana em 1818, na concepção de Franz Josef Frühbeck e abaixo a vista aérea nos tempos atuais.

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Em seu livro Karasch diz que o Campo de Santana (na região central, atual Praça da República) foi um ponto importante para a vida social dos escravos, que para lá iam, particularmente aos domingos, em suas horas de liberdade (outro local de reuniões era a Praça Tiradentes, não muito longe dali). Eram ocasiões festivas, com música e dança. A historiadora reproduz a descrição de um desses momentos feita por um mercador inglês chamado Robertson, que em 1808 achou que “não havia nada igual fora da África”.

 Escreveu o viajante: “Em frente avançavam os grupos das várias nações africanas, para o campo de Sant´Ana, o teatro de destino da festança e algazarra. Ali estavam os nativos de Moçambique e Quilumana, de Cabinda, Luanda, Benguela e Angola (…). A densa população do campo de Sant’Ana estava subdividida em círculos amplos, formados cada um por trezentos a quatrocentros negros, homens e mulheres. Dentro desses círculos, os dançarinos moviam-se ao som da música que também estava ali estacionada; e não sei qual a mais admirável, se a energia dos dançarinos, ou a dos músicos”. (Karasch, pág 326).

 Posteriormente, as autoridades proibiriam as grandes concentrações de escravos, consideradas “perturbações da ordem pública”, nas palavras de Karasch (embora, frise a historiadora, a proibição não tenha surtido totalmente efeito, tendo os encontros perseverado).

Fui ao Campo de Santana para tentar identificar algum rastro deste passado. Ficava por lá, também, um dos principais pelourinhos da cidade. Era ainda local para vendas públicas de escravos. Mas, mesmo com estes elementos significativos – e assim como no Valongo –, não há pistas.

Ponto de passagem, a algumas centenas de metros da Central do Brasil, de onde partem os trens para as zonas oeste e norte da cidade, chama a atenção no parque, a despeito de seus ares decadentes, suas belas árvores e cutias, que andam a solta. É certo que o local foi palco de grandes “momentos históricos”, nos dizeres da Wikipedia, como a coroação de D Pedro I e a Proclamação da República, conforme nos lembra, também, um desgastado monumento eregido no centro do Campo. Mas  creio que não faria falta ao menos uma plaquinha no local, algo como: “E aqui reuniam-se na primeira metade do século XIX os escravos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em seus momentos de liberdade, aos domingos…”, lembrando, talvez, como aponta Karasch, que quase a metade da população da cidade no período era de cativos, em grande parte africanos, que trouxeram consigo diversas culturas, ricas em línguas (ioruba, kikongo, quimbundo), hábitos, crenças (diferentes religiões), culinária (pirão, angu), musicalidade (tambores de diversos tipos, marimbas) , sabedorias etc.

Passeio 3 — Igreja Nossa Senhora do Rosário

 A Igreja Nossa Senhora do Rosário (metrô Uruguaiana) é uma das poucas construídas e fundadas na cidade por irmandades de escravos e libertos. No fundo desta igreja funciona atualmente o Museu do Negro.

 Ocupando um corredor e uma sala, o Museu é acanhado, com imagens de santos (como a de São Benedito, depositário de bilhetes pedindo graças), um busto de Zumbi dos Palmares (que recebe homenagens dos devotos), um pequeno mapa com os fluxos do tráfico negreiro da África para o Brasil a partir do século XVII, fotos de procissões da Irmandade nos anos 1950 (curiosamente a maioria dos que aparecem nelas é de brancos), uma palmatória de madeira, além de retratos de pessoas negras de destaque, como o de um Marechal do Exército (que agora me escapa o nome) e o da ex-governadora Benedita da Silva.

Já a Igreja propriamente dita é toda reformada, pois pegou fogo nos anos 1960, informa uma tabuleta de metal na entrada.

 E na sala escura e quente da nave lateral onde queimam-se as velas, há duas reproduções de pinturas com homens trabalhando o que parece ser uma moenda de cana; é difícil distinguir por conta do negrume. Dali é possível ver por uma fresta a calçada do lado de fora, onde, ao alcance dos braços, uma mulher toda de branco monta diariamente uma tenda para consultas – quase ouve-se sua voz lá de dentro.

Pode-se sair deste breve roteiro com a impressão de que as pessoas teriam muito a ganhar se fossem oferecidos nos espaços públicos (via monumentos, placas, exposições criativas) resquícios mais amplos (e generosos) de nossa história. Se, como já sugeriu o cientista político americano Benedict Anderson, as nações são “comunidades imaginadas”, é certo que o acesso a informações mais diversificadas nos estimularia a sonhá-las, quem sabe, em tons mais coloridos.

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Betinho conta história do Brasil em filme

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Aqui vai uma dica para professores e pessoas interessadas em cidadania de modo geral.

As produtoras Canal Imaginário e Via Fórum concluíram recentemente uma série chamada “Os Caminhos da Democracia”, baseada em depoimentos inéditos do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, sobre momentos importantes da história recente do Brasil. O filme foi produzido a partir de 10 horas de depoimentos com Betinho em seus dois últimos anos de vida (ele morreu em 1997) e narra acontecimentos da década de 1950 até a campanha contra a fome (1993). A série tem 5 episódios de 40 minutos cada. Todas as falas de Betinho contidas no filme são inéditas.

Conversei recentemente com a Cleyde Afonso, produtora do documentário histórico e que foi amiga de Betinho. Ela está rodando o Brasil, mostrando o material para professores do ensino público. Ela me disse que em Andradina (SP) alguns professores choraram ao ver o filme. Eles não tinham noção que na época da ditadura militar houve prisões, perseguições, tortura e exílio. Foi uma novidade.

 O documentário da Cleyde é de primeira qualidade. Ela faz um trabalho de formiguinha, buscando, por meio da educação, preservar a memória do país. Para interessados, vale dar uma olhada no site da produtora, com mais informações sobre a série e sobre como adquirir o pacote de DVDs.

Como Betinho é uma figura pública que ainda desperta imensa curiosidade, pode ser uma boa maneira de introduzir o tema na sala de aula para as novas gerações. Se os professores não sabiam o que se passou na época da ditadura miliar (1964-1985), o que saberão seus alunos?

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O Tamanho da encrenca

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Acima um quadro com o número de soldados estrangeiros atualmente no Afeganistão, com EUA à frente, publicado recentemente no site da revista The Economist.

Em julho as forças americanas lançaram novas ofensivas para ganhar controle sobre um certo vale na província de Helmand, uma região estratégica, segundo a revista, que tropas da OTAN não conseguem controlar há anos. É, também, a área onde mais se cultiva a papoula para a produção de ópio.

Como se vê, encrenca séria.

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