Uma visita ao cemitério dos Pretos Novos

Imagem: quadro “Filhos dos Reis brincando”, de Maria Lúcia dos Santos, em foto de Dominique Lieutet

Fiz uma visita ao Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos  (IPN), que fica no bairro da Gamboa (antiga Saúde), na região portuária do Rio de Janeiro. Passei uma ótima tarde conversando com a presidenta do Instituto, a Ana Maria de La Merced G.G.G dos Anjos, ou simplesmente, Merced. Filha de português com uma espanhola, a história do Instituto esta umbilicalmente ligada a sua trajetoria pessoal e à de seu marido, Petrucio.

Foi assim: em 1996 Merced, que mora na Rua Pedro Ernesto, recebeu um telefonema em seu trabalho, dando conta que os pedreiros que trabalhavam em uma obra em sua casa tinham, ao cavar um buraco, encontrado um punhado de ossos. Era o início de uma descoberta arqueológica, dessas passíveis de acontecer em uma cidade histórica como o Rio. Tratava-se do antigo cemitério dos pretos novos, onde foram enterrados em fossas comuns, nos séculos XVIII e início do XIX, milhares de escravos africanos, muitos dos quais recém-chegados ao Brasil, e que ficavam “armazenados” não longe dali, no mercado do Valongo. Até aquela manhã em que os pedreiros removeram a terra e se depararam com os restos mortais (e outros objetos), acreditava-se que o cemitério ficasse em outro lugar. Calcula-se que, apenas no período entre 1824 e 1830, 6.122 pessoas tenham sido sepultadas no local.

Na época da descoberta – e após Merced (na foto acima) pensar que se tratava dos restos de uma chacina (“cheguei a procurar um delegado”) – as autoridades competentes foram acionadas e arqueólogos retiraram parte do material – atualmente em poder do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB). O trabalho de escavação – que teve repercussão na imprensa no período –, porém, ficou basicamente restrito ao que os pedreiros já tinham feito: fechou-se o buraco e a obra prosseguiu. Hoje um conjunto de 4 ou 5 casas (entre elas a de Merced e a sede do IPN, que fica ao lado) repousa sobre o que muitos acreditam ser o principal depositário de restos mortais de africanos no Brasil. No presente, um estudante de arqueologia, que ficou amigo de Merced, está trabalhando para calcular as dimensões exatas do cemitério.

De lá para cá, o IPN foi criado e virou ponto de cultura do governo federal e da Secretaria de Cultura do estado do Rio de Janeiro. Passada a euforia do achado, porém, tem-se um sítio arqueológico não explorado – e as tentativas de Merced e seu marido de criarem algo a partir do fato. Mas o quê? Um museu? Por ora, eles mantêm as atividades do IPN, que abarcam, entre outras iniciativas, uma série de oficinas sobre história, voltadas para estudantes do ensino médio e professores. Mas os recursos são esparsos e a manutenção é cara – as casas são tombadas pelo patrimônio histórico, o que significa, por exemplo, que os telhados não podem ser trocados – e manter um telhado antigo e calhas não é tarefa banal.

A sede do IPN funciona em uma casa comprida com um belo teto de vigas de madeira. No salão principal há uma exposição permanente de pinturas (a Galeria de Arte Pretos Novos), alguns tapumes com fotos do sítio arqueológico, além de equipamentos de escritório. As oficinas funcionam em uma sala contígua.

Mas como manter a iniciativa é um dilema – o mesmo vivido, aliás, por diversas organizações não governamentais e iniciativas do gênero, ancoradas em excelentes intenções mas limitadas do ponto de vista de recursos. Se o Brasil fosse um país que preservasse sua memória, valorizasse isto, talvez os caminhos descortinassem com mais naturalidade, mas como não é o caso, Merced e Petrucio têm muitos sonhos mas a sensação de que o “o tempo é curto”.

O cemitério, se bem tratado, com certeza poderia fazer parte, por exemplo, de um roteiro turístico-cultural, que englobaria as diferentes facetas da vida dos africanos no Rio de Janeiro em séculos passados, ao lado do mercado do Valongo (atual Rua Camerino), o porto, entre outros pontos da região hoje chamada de Gamboa. Em um clima favorável, pró-valorização da memória, o IPN não seria um (importante) fio solto, mas elo para muitas outras coisas.

E lá estão também as pinturas de uma figura excepcional, que conheci no final da visita e com quem peguei o ônibus de volta para casa. Maria Lucia dos Santos é uma artista e tanto – uma senhora negra com cabelos suavemente acizentados e um olhar vivaz. Ela me mostra quadro por quadro, povoados por dragões do céu, dragões da terra, leõezinhos, macacos, pássaros azuis, além de outros seres que ela enxerga nas paredes e passa para as telas.

MLS, como assina a artista, mora no Morro do Pinto e conta que já foi passar dois meses em Minas Gerais pesquisando pedras. Cada pedra, ensina, tem suas qualidades. Pergunto se para esculpir, ela dá risada, e diz que é para cura – que a pedra ela arranca das grutas com as mãos, mas que o segredo ela não ensina para ninguém, pois tem gente que pode usar para o mal.

No trânsito da Av Rio Branco parado na hora do rush, ela fala sem parar, lembrando que foi para Tiradentes, em Minas Gerais, e lá pintou um quadro chamado Inocência. Por que este nome, pergunto. “É porque lá tem muita gente inocente”. E ri.

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12 Comentários

Arquivado em Cultura, História

12 Respostas para “Uma visita ao cemitério dos Pretos Novos

  1. Juliana

    Olá Rogério,

    Muito bacana seus posts sobre os pontos históricos do Rio relacionados com a trajetória dos africanos excravizados. Você está fazendo um trabalho ou pesquisa esoecífica sobre esse tema?

    abs,
    Juliana Cézar Nunes
    Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial – DF
    http://twitter.com/jupontonunes

    • rogeriojordao

      Juliana:
      obrigado pela leitura. Estou fazendo uma pesquisa que denomino como uma reportagem no tempo. Li o livro da historiadora Mary C Karasch sobre a vida dos escravos no Rio de Janeiro no século XIX e me deparei com este mapa da localização do mercado do Valongo. Como moro no Rio, decidi ir até o local, por curiosidade. Me espantei ao ver que não há nenhuma referência ao antigo mercado, nenhuma placa, nada — nenhuma memória “visível”, digamos assim. A partir daí comecei a pesquisar mais, tenho ido à Biblioteca Nacional, tentando identificar os locais exatos de certos logradouros — o Valongo, o cemitério dos Pretos Novos etc. A ideia é juntar informações que possam servir, quem sabe, para a instalação de monumentos ou placas ou que sirvam de guia para roteiros de escolas ou turísticos a estes locais. É uma iniciativa individual, mas tenho encontrado muitas pessoas (muitas pessoas legais) interessadas. Por ora, é isso!!

      • Olá! Gostei muito do post. Estou estreando nesta sexta 16/04/2010 em Oslo, Noruega, uma performance de dança-teatro baseada na história do Cemiterio dos Pretos Novos. Minha principal fonte foi o livro de Julio Cesar Medeiros da Silva Pereira, À Flor da Terra. Pesquisador minucioso, o autor aborda todo o processo de existencia do cemitério até o seu fechamento em 1830. Recomendo! Se vc se interessar em ver fotos do espetáculo, pode acessar meu blog, sourceofdance.wordpress.com. Um abraço. Deise Nunes

  2. Fernando Pacheco Jordão

    Meu caro, como disse em outra ocasião, assuntos como o cemitério, envolvendo sua participação direta, dão outro interesse ao blog.
    Abçs.

  3. Rodrigo Vianna

    Rogerio, grande matéria! Podia estar na “grande” imprensa, se a turma ainda fizesse jornalismo pra valer, por aí. É curiosidade de repórter – em campo. Muito legal. Fiquei com vontade de ir lá na Gamboa conhecer. E reproduzi o texto no meu blog. Abs, Rodrigo Vianna.

  4. Oi, Rogério,
    Li um post no blog do Rodrigo Vianna e vim fazer uma visita. Que matéria interessante e que, se por um lado revela o faro do repórter para descobrir uma boa história, por outro também é o retrato do descaso com que a nossa história (ou pelo menos uma parcela da história) é tratada.
    Grande abraço!

  5. Paulo França

    Entre a iniciativa de relatar uma história tão bacana e uma mudança no comportamento das pessoas e da preservação do patrimônio vai um longo caminho. Posso dizer que irei incluir no meu roteiro uma visita ao local e acredito que o resgate da memória tenha esse aspecto do pitoresco tão bem representado na matéria. Lembrei da canção Sonho Impossível:
    “Sonhar mais um sonho impossível
    Lutar quando é fácil ceder
    Vencer o inimigo invencível”.
    Um forte abraço e parabéns.

    • rogeriojordao

      Obrigado pelo comentário, Paulo, gostei da letra também. Realmente o trabalho de recuperação da memória às vezes ganha tons pitorescos mesmo. E talvez não por acaso, o dito cemitério ficava sob a jurisdição da Paróquia Santa Rita, a santa das causas impossíveis….

  6. Pingback: Escrevinhador

  7. Uma visita ao cemitério dos Pretos Novos

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