Pausa para: o texto de um palhaço

Abaixo reproduzo uma ótima crônica do Nando Bolognesi, que, além de amigo, é palhaço. Nando se mudou há pouco de São Paulo, cidade que o incomodava: agora mora em Itu, com a mulher e filho.  Da última vez que o visitei, me passou uma informação valiosa, a de que a Terra gira em torno de seu próprio eixo a uma velocidade de 1.500 km/h (o que faria de nós espécie de pulgas insignificantes e desorientadas em meio ao universo infinito e incompreensível). Ele defende, também, a tese de que o mundo pertence, na verdade, às bactérias, que estão aqui há bilhões de anos e são uma forma de vida mais avançada do que a nossa, dos humanos.

 Nando não é apenas um cara muito engraçado, mas também perspicaz, e humilde — não gosta de espalhar que foi premiado no ano passado na FLIP de Paraty como contista (o seu conto ficou em segundo lugar em meio a centenas de textos de várias partes do mundo).

 Ah, e ele odeia as fábulas do La Fontaine, como se depreenderá do texto abaixo, cujo título é: A Versão da Cigarra. Para acessar outras crônicas, clique aqui.

Outro dia, estava fazendo meu chequim num hotel, quando a recepcionista perguntou minha ocupação. Falei a verdade:
- Palhaço, sou palhaço.
Falei isso com entonação de quem diz: Bond, James Bond. A moça ameaçou escrever alguma coisa agitando a caneta por cima do papel, tomando cuidado para não encostar uma coisa na outra.
- Como assim? É artista? Posso por artista?
- Pode. Você pode até colocar cirurgião, mas na verdade eu sou palhaço.
- Mas eu não posso escrever isso assim. Até que o senhor é engraçado, mas não posso, tem que ser profissão. Ocupação é assim tipo profissão.
- Mas essa é minha profissão, sou palhaço. Aliás, só estou aqui por isso, vim fazer um espetáculo de palhaço.
- Ah, então por que o senhor não falou logo? É ator, profissão ator. Ator é profissão, né?
Pensei: ai como esse povo é ignorante.
- Ator é profissão e palhaço também é. Tenho DRT de palhaço em minha carteira de trabalho. Pode por, eu garanto, põe aí: profissão: palhaço. Ou ocupação, sei lá.
- Ai, o senhor é muito engraçado. Tá bom, vou por palhaço. Mas o que o senhor faz para viver? Trabalha mesmo com o quê?
Respirei fundo como quem conta até dez. A essa altura eu já tinha desistido de explicar qualquer coisa para aquela moça. Tomei em minhas mãos um calendário que estava sobre a mesa, muito mais por nervosismo do que para conferir uma data qualquer. Enquanto manuseava o calendário, que pulava de uma mão para outra, continuei respondendo de modo impaciente ao questionário da jovem recepcionista.
Uma foto de uma cigarra no calendário chamou a minha atenção. Resolvi ler o que estava escrito e acabei chocado. Chocado com a tragédia que é a vida de uma cigarra. Lembrei-me daquela fábula da infância e fiquei inconformado com a tremenda difamação que a cigarra sofre por esses duzentos ou trezentos anos durante os quais essa história vem sendo contada. Já fui logo juntando uma coisa com outra: por conta dessa difamação, essa moça tem tanto pudor em aceitar que palhaço possa ser profissão.    
Quem não conhece a fábula da cigarra e da formiga? Uma: trabalhadeira, voluntariosa e responsável. Outra: fanfarrona, cantadeira, boa vida e imune aos clamores da prudência. Passa o verão na farra e se esquece de precaver-se contra as agruras do inverno. Batata! Quando chega o inverno, uma pode usufruir da reserva construída durante o verão. Enquanto a outra paga o preço da imprudência regada a noitadas de cantoria.
O precavido colhendo os frutos da responsabilidade, enquanto a outra paga pelo seu hedonismo desmedido. A ética do trabalho, da produção, da razão sobrepondo-se ao estereótipo do artista tresloucado, inapto e frágil. Mais dia menos dia, quem foge à regra acaba se dando mal. E não foi por falta de aviso, pois a formiga bem que alertou a cigarra.
Em resumo: artista é porra louca. Aqui já temos uma difamação. Quando li sobre a vida da cigarra naquele calendário fiquei ainda mais besta.
Nessa fábula, a injúria contra a pobre cigarra é ainda mais funesta do que o preconceito contra o  artista. No afã de detonar a imagem e a moral da cantadeira, foram escolher logo a pobre cigarra como símbolo de “boa vida”.
Naquele dia descobri que vida de cigarra presta-se muito mais a fabulações trágicas, do que a essa historinha reacionária  contada há quase trezentos anos.
A cigarra, um inseto frágil com pouco mais de três centímetros, chega a viver dezessete anos. Estava escrito lá no calendário da recepcionista. Só que não são dezessete anos de gandaia. Muito pelo contrário!
A cigarra vive sob forma larvar enterrada sob nossos pés por mais de dezesseis anos. Quase toda a sua vida. Só nos últimos quatro ou cinco meses de vida assume sua forma adulta, ganha corpo, asas, antenas e cores. Só no crepúsculo de sua existência, no último fio de vida, ela se cola no tronco das árvores para entoar seu canto de despedida. Muito mais um último suspiro, um “canto do cisne”, um adeus melancólico do que uma vida na gandaia.
Como se essa verdadeira novela mexicana já não bastasse, a coisa vai ainda mais longe: esse canto derradeiro é parte de um ritual de acasalamento. Um mecanismo para gerar outras cigarras, que irão viver enterradas por mais dezesseis anos, cantar, se reproduzir para viver mais dezesseis anos enterrada e por aí vai. Pra que tudo isso meu Deus?
Recoloquei o calendário sobre a mesa e sugeri à recepcionista que desse uma lida na estória da vida da cigarra.
- Ai, eu já li. Que coisa linda, não? Que mensagem de alegria, né?
Meu rosto virou um enorme ponto de interrogação e acho que ela percebeu, pois foi logo explicando seu ponto de vista:
- O senhor não viu que vida dura? Coitada. Passa quase a vida toda enterrada e quando finalmente sai da terra, ao invés de ficar reclamando ainda vai cantar. Que beleza, não?
Aquilo que eu tinha elaborado como tragédia, ela viu como um épico.
O ponto de vista do palhaço que eu quero ser, era o dela e não o meu.
- O senhor deseja ser acordado a que horas?
- Não me acordem. A propósito, fiquei curioso: qual ocupação você deu prá mim aí na sua ficha?
- Ai, desculpe, não escrevei palhaço não, achei melhor colocar desempregado. Assim não fica tão estranho. O senhor não se zangou, né?
- Zangado, eu? De modo algum. Boa noite.
Virei as costas e saí assoviando como faria uma cigarra.

About these ads

1 Comentário

Arquivado em Cultura

Uma resposta para “Pausa para: o texto de um palhaço

  1. Incrível como muitos se recusam a aceitar palhaço como profissão, ou julgar o oficio, o mais revoltante é quando usam a mascara para protestos, ou quando viram para uma pessoa que esta fazendo algo errado e dizem “para de palhaçada” .

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s